sexta-feira, 2 de agosto de 2013

As lições de um certo Francisco

Participar da 28ª edição da Jornada Mundial da Juventude, realizada no Rio de Janeiro na última semana, foi uma experiência indescritível. Três milhões de jovens de 150 países unidos em torno de um mesmo propósito: viver a unidade na diversidade. Idiomas diferentes, cores distintas, culturas, realidades sociais das mais diversas, uma verdadeira miscelânea de fé e vida.


Foram dias de muito aprendizado e renovação da nossa fé. Ouvir as palavras do nosso Papa Chico, participar das catequeses com dois bispos baianos, ser acolhido por uma especial família do bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste, caminhar mais de 10 quilômetros em meio a milhões de jovens e passar a noite na fria Copacabana me fez perceber a força de nossa Igreja e reascendeu em nós, jovens, a esperança de uma Igreja mais próxima das pessoas, sobretudo as mais marginalizadas.

O papa Francisco foi ao encontro das situações de exclusão e sofrimento e teve atitudes e palavras de solidariedade e carinho para com os pobres e os que sofrem. Aliás, a palavra solidariedade, foi uma das palavras mais usadas pelo Papa nesses dias. As atenções aos doentes e excluídos do bem comum, a visita ao Hospital São Francisco e o encontro com a Comunidade da favela da Varginha foram marcantes. Como não destacar o uso de um veículo popular para ser seu carro oficial; o alojamento despojado e essencial, suas cozinheiras – as próprias irmãs que cuidam da casa –, suas refeições, as mesmas que a maioria dos peregrinos.

Ele homenageou o coração acolhedor e solidário dos brasileiros e a sua disposição para “colocar mais água no feijão”, para receber sempre mais alguém em casa… Chamou a atenção para a necessidade de mais solidariedade para resolver os problemas sociais no Brasil e no mundo. Alertou os jovens e a todos para não seguirem a mentalidade consumista e a não se “empanturrar” de coisas que não matam a fome existencial, mas a levar vida sóbria e atenta às necessidades do próximo.

Muito obrigado Papa Francisco, pela sua presença entre nós! Foi abençoada, marcante e transformadora. Seus ensinamentos e gestos habitarão por muito tempo em nossos corações alimentando mudanças e comprometimentos para vivermos uma Igreja missionária, samaritana, profética e servidora.


Tárcio Mota é jornalista

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Um homem e o sertão



O sertão é a raiz do tempo, do ser humano. É a resistência da vida e da solidariedade. Por ser rústico, é intenso, afirmativo e profundo. É no resistente sertão, Fazenda Vargem – Conceição do Coité – que na madrugada de 15 de maio de 1931, nasce Hildebrando Ferreira Mota. O sétimo dos oito filhos de Simão da Motta e Firmina Ferreira Mota. O batismo do pequeno Hildebrando ocorreu na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, por um frade capuchinho que estava em missão na cidade. O sobrenome da família deveria ser “da Motta”, mas Dona Firmina o achava esquisito e acabou batizando os filhos como Ferreira Mota. O pequeno Hildebrando cresceu em meio aos umbuzeiros e mandacarus e desde cedo mostrava interesse em cuidar dos animais e ajudar seu pai na administração da pequena fazenda. 

A casa simples da família Mota abrigou durante anos os 9 irmãos, além dos familiares e amigos que por ali passavam pequenas temporadas. Dona Firmina era muito religiosa e por isso, todos os dias, às seis horas, reunia a família para a oração do terço mariano. Na fazenda Vargem não havia energia elétrica, e após a oração e janta – quase sempre cuscuz com café e leite de gado – Hildebrando e os irmãos sentavam-se no alpendre da casa para ouvir as estórias que os faziam viajar e sonhar. O pai não largava o velho rádio, sempre atento ao noticiário e às músicas de Luis Gonzaga.

Hildebrando cresceu em estatura, sabedoria e graça! Em meados da década de 1950, do alto do seu cavalo conheceu Maria das Dores Costa Souza, a bela Mariita de Alagoinhas. Após um período de namoro, casaram-se sob as bênçãos dos pais e de Deus e a ainda jovem Mariita passou a chamar-se Maria das Dores Souza Mota. Da união do casal nasceram Maria das Graças, José Marcílio, Maria Cristina, Roberto, Maria Angélica, Hildebrando Filho e Ana Maria.

Mariita era professora, das mais queridas na cidade e Hildebrando enfermeiro. Apesar do trabalho no hospital, Hildebrando nunca abandonou a sua grande paixão: o campo, a terra, tão importante para a sobrevivência humana... A família crescia e com ela as dificuldades, mas acima de tudo o sentimento de união. Os filhos cresceram, casaram, vieram os primeiros netos.

Foram quase 50 anos de união! Dezenas de netos, uma bisneta e muita história boa para contar. Em junho de 1999 a mais bela flor do nosso jardim nos deixou, ficaram, no entanto, os seus ensinamentos, a sua simplicidade, a acolhida, o carinho por todos os filhos, netos, vizinhos e amigos e, acima de tudo um grande legado que até hoje carregamos conosco: a espiritualidade, a oração, o temor a Deus, autor e princípio da vida.
Com a morte da queria Mariita, Hildebrando passou a residir com o filho Roberto.

Minha experiência - Foram 12 anos de convivência e eu pude aprender muito. O silêncio também comunica e mesmo com poucas palavras pude perceber o grande homem que ele era. Nas conversas durante o almoço ou a janta (o prato era quase sempre feijão de corda com farinha de tapioca), pude reviver um pouco da história de Hildebrando que hoje compartilho com cada um de vocês!

Em 2009 fomos surpreendidos com o reaparecimento do câncer, que o já lhe havia causado sofrimento ainda nos anos 1990. Nós nos surpreendemos, mas ele não! Foi firme em todos os momentos e todas as vezes em que o encontrava e perguntava como estava a resposta era essa: “Estou bem, graças a Deus”. Acompanhei cada passo de grande Hildebrando. As sessões de radioterapia e quimioterapia que nunca o abalaram e nem o impediram de exercer o ofício que escolheu: cuidar da terra, dos animais... Acompanhei a fé desse homem, herdada de sua mãe. Não sei se vocês sabem, mas todos os dias antes de deitar ele rezava o terço, meditava a Paixão de Cristo, que era também a sua paixão, afinal de contas, aquela triste doença o consumia internamente.

O tempo passava e todos nós sabíamos que a doença se agravava a cada dia. Ele talvez também soubesse, mas não se entregou e viveu intensamente até os últimos momentos. Hildebrando foi resistente como é o sertão onde nasceu, cresceu e aprendeu a superar as dificuldades. No dia 8 de setembro de 2011 nos deixou... Reencontrou a sua linda flor Mariita!

Habita em meu coração a lembrança de um verdadeiro guerreiro, forte e resistente como os mandacarus que ainda hoje embelezam a Fazenda Vargem, onde ele nasceu. A saudade que habita em nosso coração nos faz lembrar o pai exemplar, avô dedicado, irmão e tio querido por todos. 2 anos se passaram e permanece em nós esse sentimento de gratidão pela arvore frutífera que ele plantou.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Viva Bira Gordo, Viva Zumbi!


A Bahia amanheceu mais triste nesta quinta-feira (03), com a notícia da morte do historiador, professor e membro da Academia Baiana de Letras, Ubiratan Castro. Natural de Salvador, Bira Gordo, como era carinhosamente conhecido, fez de sua vida um testemunho de luta em favor dos negros e da valorização da cultura baiana. Reproduzo abaixo um dos últimos artigos de sua autoria, publicado em seu blog no mês de agosto. 

Viva Zumbi* 

Quando, há muitos anos atrás, uma grande caravana do movimento negro baiano, tendo à frente Mãe Hilda do Jitolu e Vovô do Ilê Aiyê, subiu a Serra da Barriga, em Alagoas, o 20 de novembro estava consagrado como data de celebração da consciência negra. Em 1695, o Quilombo dos Palmares fora destruído e o seu líder, Zumbi, morto e decapitado. Passava para a história o símbolo maior de um dirigente político negro que lutou até o último suspiro contra a escravidão. Ganga Zumba, seu antecessor, acreditou na possibilidade de uma negociação justa com as autoridades coloniais. A paz de Ganga era a derrota do quilombo. Ele desceu a serra com os seus seguidores, colocou-se na beira da praia sob a tutela dos senhores de escravos, e renunciou à luta contra a escravidão, entregando aos senhores os escravos recentemente liberados no quilombo e recusando-se a aceitar qualquer outro fugitivo. Seu destino foi triste. Faminto, re-escravizado, traído, Ganga Zumba morreu.

Zumbi disse não! Reuniu todos os mocambos, fortificou a sede de Palmares e preparou a resistência ao governo da Capitania de Pernambuco. Alguns militantes e historiadores como Joel Rufino dos Santos, se perguntam porque Zumbi e o povo de Palmares resolveram abandonar a velha tática de guerrilhas, pela qual há cem anos- desde 1595 ?circularam em uma rede de mocambos precários que, uma vez destruídos por ataques dos escravistas, rapidamente se refaziam adiante e continuavam a luta? Porque Zumbi preferiu a guerra de posição: fincou pé na Serra da Barriga, fortificou-se e resolveu enfrentar cara a cara o inimigo? Os palmarinos tinham clareza da superioridade militar do inimigo, reunificados após a expulsão dos holandeses, vitoriosos na reconquista de Angola aos holandeses e na destruição do reino cristão do Congo na batalha de Ambuíla. Se assim era, fincar pé em Palmares era morte certa, era suicídio. Hoje, mais de trezentos anos depois a resposta é evidente: naquele tempo era possível ter esperança. Ousar luta,ousar vencer, porque não?

O que cabe a nós, cidadãos e historiadores de hoje, é a pergunta: o que havia de tão valioso que justificava a ousadia temerária daqueles palmarinos? A mesma pergunta pode ser feita em relação aos Malês da Bahia. Porque, ao invés de fazerem mais um levante para sair da escravidão, como os mais de dez que o precederam na Cidade do Salvador, resolveram fazer uma revolução escrava ? A leitura atenta da obra de João José Reis mostra que os Malês tinham consciência que era preciso conquistar a Cidade do Salvador, abolir a escravidão, inverter as hierarquias sociais, para enfim poderem viver plenamente o Islã em liberdade. No caso de Palmares, há evidências que os quilombolas entenderam que era o momento de parar de fugir e assegurar a consolidação de uma cidade-estado em que fosse possível a vida em liberdade.

Para melhor compreendermos essa opção política, é preciso ver em Palmares muito mais do que um refúgio de escravos. Ao longo de cem anos de resistência, os palmarinos construíram um território amplo, formado por vários mocambos ligados em rede. Várias foram as gerações nascidas em Palmares, fora da escravidão. Eles formaram um povo palmarino, sem o trauma da derrota originária da escravização em África e sem a vivência da escravidão no Brasil. Desenvolveram ao longo dos anos a capacidade de absorção e de re-culturação dos fugitivos da escravidão, negros e índios, além dos brancos excluídos da sociedade açucareira. A guerra permanente contra a escravidão soldava a solidariedade do povo em torno de uma identidade quilombola.

Além de território, povo e identidade, desenvolveu-se em Palmares um modelo de economia auto-sustentável, regulada por instituições sociais de justiça e de governo. Portanto, estava em curso um processo de formação de um estado nacional multi-étnico, fundado na cooperação do trabalho livre e organizado a partir das referências culturais africanas. Esta foi a primeira formulação de um projeto de estado nacional brasileiro, em um momento em que a sociedade colonial portuguesa, mesmo após a vitória de Guararapes contra os holandeses, estava inteiramente empenhada na reconquista da África e na reconstrução do Império Atlântico Português.

Zumbi fincou pé em Palmares e aceitou a guerra de posição para defender a possibilidade de um Brasil livre, liderado pelos africanos. Este foi o verdadeiro sonho de Zumbi, que valia o sacrifício e valeu a experiência como legado histórico para as lutas contemporâneas do povo brasileiro. O exemplo de Zumbi é vivo, hoje, não pelo aspecto guerreiro, mas pelo aspecto político. Afinal sabemos todos que a guerra é uma dimensão terminal da política. Os milhares de quilombos que se organizaram nos duzentos anos seguintes, resistiram e enfraqueceram a escravidão, mas nenhum deles conseguiu formular um projeto de estado e de sociedade alternativos à monarquia escravista. O movimento abolicionista, a partir dos anos sessenta do século XIX, conseguiu mobilizar a mais ampla frente popular contra a escravidão, mas não produziu nenhum projeto político, social e econômico para o pós-escravidão. Isto se demonstra em nossa História pela inteira desarticulação do negro brasileiro no dia seguinte ao Treze de Maio. Sem projeto de sociedade, ficou dilacerado entre o projeto do Terceiro Reinado da gratidão à princesa e o projeto da República dos grandes fazendeiros. O negro brasileiro foi esmagado pelo imigracionismo e pela exclusão política e social, perdeu todos os aliados da véspera, virou um sub-cidadão.

Hoje, no momento em que o movimento negro brasileiro alcança vitórias importantes e o governo da República incorpora de uma maneira sincera o compromisso com a igualdade racial, não podemos esquecer o exemplo de Zumbi. Não basta lutar contra o racismo e contra a exclusão social através de múltiplas políticas de ações afirmativas. É preciso construir um modelo político e econômico para o Brasil, que consagre e igualdade racial como componente central da democracia. Como em Palmares, não basta lutar contra a desigualdade. Devemos construir o sonho da liberdade, o estado feliz do não abatimento, segundo os revolucionários negros da Bahia em 1798. Este é o sonho palmarino de um país de todos os brasileiros.

Valeu Zumbi !
*Artigo publicado originalmente no blog oficial do professor e historiador Ubiratan Castro de Araújo. 

sexta-feira, 4 de março de 2011

Marighela: O inimigo número 1 da ditadura

Carlos Marighella nasceu em Salvador no dia 5 de dezembro de 1911. Filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas insurreições contra a escravidão. Ainda jovem despertou para as lutas sociais, ingressando aos 18 anos o curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e a militância no Partido Comunista (PCB).

Em 1936 o líder revolucionário abandonou os estudos e mudou-se para São Paulo na tentativa de reorganizar o PCB que havia sido gravemente reprimido durante o levange de 1935. A militância no Partido Comunista durou mais de três décadas, período em que foi, inclusive, eleito deputado federal pela Bahia, tendo colaborado diretamente na elaboração da constituição de 1945. No parlamento, Marighella sempre foi considerado um dos mais aguerridos deputados de todas as bancadas, tendo sempre defendido a classe operária e denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro.

A luta armada e o combate a ditadura

Na década de 1950, Marighella visitou países como China, União Soviética e Cuba, conhecendo de perto suas experiências revolucionárias vitoriosas. Crescia no líder revolucionário, a crença de que era necessário organizar a resistência dos trabalhadores brasileiros contra a ditadura, pela libertação nacional e o socialismo. Marighella acreditava que só a luta armada, fundada na aliança entre operários e camponeses, seria capaz de derrotar o regime militar instaurado no Brasil em 1964. Por conta dessa posição, divergente da defendida pelo Partido Comunista, Marighella foi expulso do partido em 1967, ano em que funda a Aliança Libertadora Nacional (ALN), e dá início à luta armada contra a ditadura.

O endurecimento do regime militar, com a promulgação do AI-5, em finais de 1968, culminou com uma repressão sem precedentes. Nesse período, Marighella passa a ser apontado como inimigo público número um do governo militar e torna-se alvo de uma caçada que envolveu toda a polícia política do país. Há exatos 40 anos, na noite do dia 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella foi brutalmente assassinado, na Alameda Casa Branca, capital paulistana, por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), sob comando do delegado Sérgio Paranhos Fleury. O martírio de Marighella não o exterminou da memória coletiva, pois um homem não desaparece com sua morte, ao contrário, pode crescer depois dela, engrandecer-se com ela.

Marighella e a República

A contribuição desse nobre baiano para o processo de consolidação da república brasileira é muito grande, haja a vista a sua bravura e coragem em defender os ideais de liberdade, soberania e cidadania. Na mensagem que enviou aos quinze presos políticos libertados em troca do embaixador estadunidense, Marighella afirmou: "O povo brasileiro começou sua caminhada. E avança decidido, ombro a ombro com os povos latino-americanos, com os olhos voltados à revolução cubana, símbolo do triunfo do movimento revolucionário armado”.

As idéias de Marighella não morreram com ele. A produção intelectual do militante comunista, deputado constituinte e fundador da ALN, vai além do Manual do Guerrilheiro Urbano, que marcou os movimentos revolucionários das décadas de sessenta e setenta. Traduzido em várias línguas, Carlos Marighella foi lido na América Latina, Europa e África, chegando até aos países árabes.

Outra iniciativa inspirada nos ideais do líder comunista é a Escola Carlos Marighella, inaugurada em 1973 no município de Sandino, província de Pinar del Rio, Cuba, e que funciona como instituto pré-universitário, desenvolvendo atividades didáticas e trabalho agrícola, é auto-suficiente e fornece alimentação balanceada para estudantes e funcionários.

A vida de Marighella e a sua luta pela soberania da república brasileira é o maior legado que esse grande homem deixou-nos. Seu nome se inscreve hoje, com honra ao lado de tantos outros que lutaram e continuam lutando pela construção de um Brasil mais justo, humano e igual. O exemplo dado por Marighella continua a iluminar a luta libertadora dos brasileiros, que buscam no dia a dia um futuro feliz para a humanidade.

Uma conversa com Luiz Nova...

Essa entrevista foi publicada originalmente no blog de Nuno Gonçalves, mas achei muito interessante e resolvi postar aqui!
Grande Lula!!!

Ainda é possível enxergar poesia na política?

Luiz: a política como a ação humana em busca de equacionar a vida e o devir. Sempre há poesia nas ações dos seres humanos. É verdade que vivemos o tempo do horizonte cotidiano e fragmentado. Tempo da velha política hegemonizada pelo indivíduo liberal, catedral de si mesmo, e carcomida pela desesperança da derrota histórica que marca os projetos coletivos. Por isso, é tempo de pouca realização e muita resistência. Mas a resistência é poesia pura, pois é a capacidade humana de se superar e continuar crendo na construção do horizonte, pós-horizonte visível. É a poesia mais profunda de enxergar na sobrevivência um sentido maior que simplesmente sobreviver. Creio que vivemos um tempo de cinza sobre brasa. A expectativa é de quando o vento da história soprará.
A política sempre foi dominada pela pragmática do poder e continuará sendo, enquanto a lógica da sociedade for a da fragmentação da vida e das possibilidades de sua realização. Só teremos plenitude poética, na política, quando for plena, e não parcial e fragmentada, a lógica de abordagem da vida e da sociedade e a equação do futuro. Talvez possamos dizer, assim como disse Kant sobre a modernidade, que forçosamente vivemos a maioridade do homem, na construção poética do futuro. Aí, o caráter absoluto das emoções tem que ser temperado com a objetividade do construir outro mundo. Veja a diferença entre, de um lado e em outra época, a experiência de Che Guevara, ainda hoje, e creio que permanentemente, um justo símbolo da entrega ao compromisso e desejo de emancipação humana. De outro lado, a forte, bela, prática e objetiva experiência do Movimento Zapatista de Chiapas, no México. A poesia do assalto aos céus de um, transformada na construção cotidiana e determinada do caminho e do caminhar diferenciado no desejo da justiça e libertação. São duas práticas políticas efetivas e determinadas na construção de outro mundo, são poesias da ação política, contextualizadas nos seus diferentes tempos e percepções do momento histórico. Fazer política transformadora nesta quadra histórica demanda, além de todo o compromisso que sempre demandou, conectar o futuro ao cotidiano. Muito mais difícil, mas não menos poético, são só outros versos e outra poesia.

Como funcionam as vísceras da mídia?

Luiz: A mídia é parte integrante e militante ativa do bloco histórico que comanda o projeto “vitorioso” do capitalismo global, fiel agente ideológico da manutenção da sociedade do capital e do mercado como condutor das regulações. A mídia é empresa; a mídia é o lucro; é a mais valia sistêmica extraída da sociedade; a mídia é a expressão maior do fetiche do espetáculo, sistematizado por Guy Debord. Esse fetiche equaciona, para o capital, a irrecusável dimensão pública da mídia, na qual expressa a relação assimétrica da diversidade humana e social. Na mídia, o hegemônico aparece absoluto e o contra-hegemônico, quando surge, é sob a crítica do discurso midiático, conservador, sempre sustentado no moralismo e no senso comum. As vísceras da mídia funcionam a partir do lucro, das artimanhas para mantê-lo e do permanente aprimoramento dos mecanismos de naturalização dos interesses hegemônicos.

Me fale um pouco sobre estes 2 grandes temas: a mulher e o mar.

Luiz: A mulher é a companheira que vai da inexplicável entrega sem reservas à manutenção do mistério de ser única. A mulher é um mar de poesia, uma conquista a ser construída cotidianamente. Um mistério da realização e reprodução da vida. A mulher e o mar são dois mistérios desafiantes e aconchegantes. Como disse Caymmi: “É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar”. É inevitável se entregar aos mistérios de uma mulher e, sob seu dissimulado comando, percorrer o caminho que a paixão indica. A mulher e o mar, o mar e a mulher são mistérios ascendentes, calma e intensidade. Paz e entrega.

Se um extraterrestre lhe perguntasse, o que diabos é a Bahia de todos os santos, o que você responderia?

Luiz: A Bahia é o futuro que não se realizou. É a ambigüidade da convergência entre o passado representado pela Idade Média e o futuro praticado na ampliação dos mercados, início da modernidade. A Bahia é a dualidade presente na formação brasileira, ampliada no forte presença negra na vida urbana de Salvador, maior porto do hemisfério sul, até o século dezessete. A Bahia é a vida comunitária desigual e compartilhada na sociabilidade descomprometida. A Bahia é toda boa possibilidade que persiste irrealizada. Como uma sociedade que, cedo, absorveu a dinâmica do comércio, mas de forma tardia a disciplina automatizante do industrialismo. Não tem o rigor da produção, mas tem o compromisso com o produzir prazerosamente. A Bahia vive, hoje, uma transição menos rica que no passado, posto que está a se integrar definitivamente no padrão globalizado das metrópoles liberais e suas mazelas, empurrando suas especificidades para os guetos do turismo. “Triste Bahia...”, que não aproveitou a condição de esquecida, para consolidar um novo modo de viver e se integra desprotegida reproduzindo de forma pragmática as mazelas das metrópoles. E podia ser diferente?

Para encerrar, 2 outros grandes temas: a morte e o sertão.

Luiz: A morte é o absoluto. É o fim. A certeza mais imprevisível. O sertão é a raiz do tempo, do ser humano. É a resistência da vida e da solidariedade. Por ser rústico, é intenso, afirmativo e profundo.

Jornalismo: uma questão de ética

Cabe ao jornalismo promover a humanização, tornando o homem melhor. Sabe-se que os meios de comunicação não são absolutamente imparciais e inofensivos, cumprindo sempre uma função, seja positiva ou negativa. O debate sobre os limites éticos que devem reger a produção e a transmissão das informações necessita ser atualizado sempre, pois não trata-se de uma preocupação infundada. Outra implicação ética importante refere-se à formação das nossas crianças e jovens. Submetidos à uma programação que destaca apenas o consumismo e a disputa como valores fundamentais para a vida humana, provavelmente não terão a oportunidade de conhecer valores referentes à formação humana e que levam em consideração o compromisso, a solidariedade e os sentimentos ligados ao bem estar do homem.
Nesse processo de discussão da ética no jornalismo, é importante ressaltar a idéia defendida pelo jornalista Claudio Abramo de que a “ética é uma só”. Não existe, então, ética do jornalista, ou mesmo ética do advogado, existe a ética do indivíduo, do cidadão. O jornalista, entretanto, está mais ligado à essa questão por trabalhar diariamente com a transmissão de notícias, em que a verdade deve ser sempre preservada. É papel do jornalista informar a sociedade, pautando-se sempre na responsabilidade, respeitando as diferenças e a diversidade, estimulando a solidariedade, promovendo a cidadania e combatendo toda a forma de sensacionalismo e banalização da violência e do sexo. Fazer a democratização da mídia é pois, o maior desafio ético posto diante do jornalismo brasileiro hoje.

sábado, 2 de janeiro de 2010